Passei semanas em recepções de clínicas de família em Belém antes de abrir um editor. Não escutei o que o sistema fazia — escutei o que a clínica deixava de fazer por causa do sistema. Uma senhora que ligava três vezes por semana porque nunca sabia se a consulta estava confirmada. Uma médica que digitava a mesma anamnese seis vezes por dia. Uma recepcionista que jamais podia sair para almoçar sem ligar a secretária eletrônica no celular.
Escrevi tudo. Depois escrevi de novo — sem o vocabulário do software. Só quando o problema estava descrito em palavras da clínica é que comecei a modelar entidades, fluxos, permissões, telas. A Açaí Clínica nasceu dessa inversão: primeiro o consultório, depois o código.
Este produto não é a maior automação que já fiz — é a mais educada. Ela recua quando a pessoa entra na sala. Volta a agir quando a porta fecha. Se este memorial tem qualquer valor, é o de deixar registrado que software para saúde pode ter compostura. E que a engenharia certa não é a mais barulhenta: é a que devolve tempo sem pedir atenção.
— Carlos EduardoEngenheiro de Produto · Design · Build · Operate · Belém–PA